Dismorfia do Zoom: como as chamadas por vídeo tem afetado negativamente a autoestima das pessoas.


A pandemia COVID-19 mudou nossa forma de viver no digital. Estamos estudando, trabalhando, confraternizando, casando e até morrendo (sim, até funerais ocorreram) por chamadas de vídeo. Zoom, Microsoft Teams, Google Meet e outros programas semelhantes permitiram que a vida continuasse acontecendo após o lockdown, mas essas plataformas (aqui nomeadas coletivamente de “Zoom”) também podem estar afetando negativamente a maneira como as pessoas se vêem.


A reunião no Zoom começa e você já fica na dúvida se deve entrar com ou sem vídeo. Torce para não precisar ligar o vídeo. Só liga mesmo se for obrigado ou se não se importar de se expor. Neste momento, começa sua autoanálise de como está sua aparência e seu ambiente em casa - "Será que dá para ver aquela roupa lá atrás?" ou "Nossa, como minha testa está enrugada!". Além, é claro, das comparações com as outras pessoas que estão na reunião. Somos obrigados a mostrar nossa privacidade, nossa casa, nosso estilo de vida e nossa família. Uns podem não se importar, outros podem sentir muita vergonha, e isso afeta diretamente a autoestima e autoconfiança das pessoas.


Quando estamos conversando na vida offline não ficamos nos olhando, vendo nossas reações e expressões. Estamos em contato com o outro, observando o que está ao nosso redor. Entretanto, nas chamadas por vídeo, somos forçados a confrontar nossa própria imagem, às vezes horas por dia no homeoffice, nos tornando mais conscientes de como aparecemos para o outro e, muitas pessoas, estão ficando insatisfeitas com a sua aparência.


Com as pessoas batendo o recorde de tempo em plataformas digitais olhando para sua imagem distorcida, um estudo de pesquisa publicado na edição de janeiro de 2021 do International Journal of Women's Dermatology, com mais de 100 dermatologistas certificados, mostrou um aumento de 50% no número de consultas estéticas nas clínicas dermatológicas dos EUA.


Os resultados desse estudo elucidam um novo problema de saúde mental, apelidado de "Dismorfia do Zoom", no qual 86% dos pacientes que procuraram consultas e procedimentos estéticos tinham como principal motivo melhorar sua aparência facial em chamadas de videoconferência. Outros estudos observaram resultados semelhantes com o público em geral mostrando que, daqueles que anteriormente não tinham interesse em tratamentos estéticos faciais, 40% agora planejam buscar tratamentos com base nas preocupações apenas por sua aparência de videoconferência (Cristel et al., 2020).


Segundo as pesquisas, os pacientes parecem estar mais preocupados com as regiões do pescoço para cima, mais notavelmente a testa, olhos, pescoço e cabelo. As preocupações específicas incluem rugas na parte superior da face, olheiras/bolsas sob os olhos, manchas escuras e flacidez do pescoço. O Botox é o queridinho dos procedimentos. Uma outra análise do Google Trends mostrou um aumento de pesquisa sobre "acne" e "queda de cabelo" e os autores atribuíram a tendência da pesquisa com ansiedade e depressão, condições psicológicas agravadas pelo isolamento da quarentena.


Os efeitos de distorção das webcams também podem contribuir para esse aumento das consultas estéticas, já que a maioria dos pacientes não sabe que as câmeras podem distorcer a imagem e, por baixa qualidade de vídeo, representar de forma imprecisa a sua verdadeira aparência. Um estudo de 2018 descobriu que uma foto tirada a 30 centímetros de distância aumenta o tamanho do nariz percebido em aproximadamente 30% quando comparado com uma imagem tirada a um metro e meio (Ward et al., 2018). Com as webcams geralmente gravando em distâncias mais curtas, o resultado é um rosto mais arredondado, olhos maiores, nariz mais largo, testa maior e orelhas que desaparecem atrás das bochechas (Třebický et al., 2016).


Estudos têm mostrado que aquelas pessoas que passam mais tempo nas redes sociais têm níveis mais altos de insatisfação corporal e depressão (Shome et al., 2020, Woods e Scott, 2016). Um estudo mostrou que, quando precisam postar fotos nas redes sociais, a maioria dos participantes notou uma diminuição na autoconfiança e um aumento no desejo de se submeter à cirurgia estética (Shome et al., 2020). Embora o Zoom possa não ser considerado rede social, exige que as pessoas se exponham no digital de uma forma que muitos não estavam acostumados.


Combinando esses resultados de estudos, é evidente que o Zoom, embora uma ferramenta útil e necessária para manter a produtividade durante a quarentena, transformou a forma como os indivíduos se comunicam, se percebem e se relacionam no mundo digital. A exposição aumentada e imagem distorcida na tela podem levar os pacientes a desenvolver traços de Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), com tendência a se preocupar com defeitos físicos reais ou imaginários e causando prejuízo funcional. É um transtorno mental com obsessão pela perfeição. Os pacientes com TDC muitas vezes procuram procedimentos estéticos para melhorar sua aparência, mas raramente ficam satisfeitos com os resultados, terminando em um ciclo de insatisfação. Aproximadamente 9% a 14% dos pacientes em clínicas de dermatologia geral têm diagnóstico de Transtorno Dismórfico Corporal e, no ambiente de cirurgia estética, acredita-se que a prevalência seja ainda maior (Vashi, 2016).


Antes do Zoom, uma série de aplicativos de edição de fotos permitiam que os indivíduos suavizassem a pele, afinassem o nariz e aumentassem os olhos para criar uma versão editada de si mesmos. Na consulta médica, o paciente levava suas selfies editadas, solicitando um procedimento ou cirurgia estética para que seu rosto ficasse idêntico ao filtro da selfie (Özgür et al., 2017). Este fenômeno, conhecido como "Dismorfia do Snapchat", tem causado preocupação generalizada com seu potencial de desencadear ou agravar o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC; Rajanala et al., 2018). Em 2019, 72% da American Academy of Facial Plastic e membros da Cirurgia Reconstrutiva relataram ter atendido pacientes que buscavam procedimentos estéticos para melhorar suas selfies. Ao contrário do Snapchat, no qual as pessoas conscientemente mudam sua aparência, no que se considera a Dismorfia de Zoom (Rice et al., 2020), pode ser caracterizado por ficar se olhando fixamente de forma prolongada e por pensamentos negativos sobre uma imagem distorcida de si mesmo.


A boa notícia é que a “Dismorfia do Zoom” - assim como o Transtorno Dismórfico Corporal - responde à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A psicoterapia ajuda a identificar e substituir pensamentos, emoções e comportamentos disfuncionais. O mundo digital avança muito mais rápido do que nossa capacidade de adaptação. É um mundo novo e muito acelerado. A sensação é de que a cada dia um novo aplicativo, rede social ou plataforma está sendo desenvolvida e temos que correr para nos adaptarmos. Esse mundo acelerado tem trazido à tona graves problemas emocionais e psicológicos, afetando diretamente a autoestima e autoconfiança das pessoas. Precisamos cuidar da nossa saúde mental para que o avanço da tecnologia não se torne nosso maior indicador do surgimento de novos transtornos mentais.



Referências


Shauna M. Rice, Julia A. Siegel, Tiffany Libby, Emmy Graber, Arianne Shadi Kourosh,

Zooming into cosmetic procedures during the COVID-19 pandemic: The provider’s perspective, International Journal of Women's Dermatology, 2021.


Cristel et al., 2020, R.T. Cristel, D. Demesh, S.H. DayanVideo conferencing impact on facial appearance: Looking beyond the COVID-19 pandemic. Facial Plast Surg Aesthet Med, 22 (4) (2020), pp. 238-239


Ward et al., 2018, B. Ward, M. Ward, O. Fried, B. PaskhoverNasal distortion in short-distance photographs: the selfie effect. JAMA Facial Plast Surg, 20 (4) (2018), pp. 333-335


Třebický et al., 2016, V. Třebický, J. Fialová, K. Kleisner, J. Havlíček, P. Brañas-Garza. Focal length affects depicted shape and perception of facial images. PLoS One, 11 (2) (2016), p. e0149313


Shome et al., 2020, D. Shome, S. Vadera, S.R. Male, R. KapoorDoes taking selfies lead to increased desire to undergo cosmetic surgery. J Cosmet Dermatol, 19 (8) (2020), pp. 2025-2032


Scott, R, 2020. Must have video conferencing statistics 2020 [Internet]. 2020 [cited 2020 July 28]. Available from: www.uctoday.com/collaboration/video-conferencing/video-conferencing-statistics/.


N.A. Vashi, 2016. Obsession with perfection: body dysmorphia. Clin Dermatol, 34 (6) (2016), pp. 788-791


Özgür et al., 2017 E. Özgür, N. Muluk, C. Cingi. Is selfie a new cause of increasing rhinoplasties? Facial Plast Surg, 33 (4) (2017), pp. 423-427.


Rajanala S, Maymone MB, Vashi NA. Selfies—living in the era of filtered photographs. JAMA Facial Plast Surg. 2018;20(6):443–444.


Rice et al., 2020 S.M. Rice, E. Graber, A.S. KouroshA pandemic of dysmorphia: “Zooming” into the perception of our appearance. Facial Plast Surg Aesthet Med, 22 (6) (2020), pp. 401-402.


Barnett A, 2021. Video Conferencing Has Negatively Impacted Some Individuals’ Self-Image. Available from: https://telementalhealthtraining.com/zoom-dysmorphia-covid-19-pandemic-leads-to-new-condition?idU=2






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